14.11.15

30 frases para não esquecer (1/3)

14.11.15


Mais uma vez, meu grupo do core lançou um projetinho de blogagem coletiva: desta vez, sugeriu que falássemos sobre 30 frases para não esquecer. Como sou lesada e não consigo lembrar de 30 frases, pensei em falar de trechos de livros, filmes e música de que eu gosto e procuro sempre reler. 

Vou tentar ser o mais concisa possível, porque 30 fragmentos são MUITA coisa xD.

[1] A primeira, já citei aqui em outras oportunidades, está no meu perfil do facebook e é um trecho do livro "O lobo da estepe", do Hermann Hesse, um livro que simplesmente mudou muito a minha percepção das coisas. Fala de quando o protagonista se encontra com uma moça em um clube e essa moça lhe diz bem umas verdades na sua cara. Meio que as verdades que eu precisava ouvir na época:


— Quero dizer-lhe hoje uma coisa que já sei há muito e que você também sabe, mas que talvez nunca a confessou a si mesmo. Quero dizer-lhe agora o que sei de mim, de você, de nosso destino. Você, Harry, sempre foi um artista e um pensador, um homem cheio de fé e de alegria, sempre ao encalço do grande e do eterno, nunca se contentando com o bonito e o mesquinho. Mas quanto mais foi despertado pela vida e conduzido para dentro de si mesmo, tanto maior se tornou sua necessidade, tanto mais fundo mergulhou no sofrimento, na timidez, no desespero; mergulhou até o pescoço, e tudo o que no passado conheceu, amou e venerou como belo e santo, toda a sua fé de então nos homens e em nosso elevado destino, nada pôde ajudá-lo, tudo perdeu o valor e se fez em pedaços. Sua fé não encontrou mais ar que respirasse. E a morte por asfixia é uma morte muito dura. Não é verdade, Harry? Não é este o seu destino?
Eu assentia, assentia e assentia.
— Você trazia no íntimo uma imagem da vida, uma fé, urna exigência; estava disposto a feitos, a sofrimentos e sacrifícios, e logo aos poucos notou que o mundo não lhe pedia nenhuma ação, nenhum sacrifício nem algo semelhante; que a vida não é nenhum poema épico, com rasgos de heróis e coisas parecidas, mas um salão burguês, no qual se vive inteiramente feliz com a comida e a bebida, o café e o tricô, o jogo de cartas e a música de rádio. E quem aspira a outra coisa e traz em si o heróico e o belo, a veneração pelos grandes poetas ou a veneração pelos santos, não passa de um louco ou de um Quixote.


[2] Esse trecho do poema "Tabacaria", do digníssimo Fernando Pessoa, também resume muito meus estados de ser na vida xD:

Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

[3] Falando em poemas, não posso passar o post sem falar dessa poeta argentina que conheço tão pouco e já considero pacas (Alejandra Pizarnik). As imagens dessa mulher me machucam, porque ela tem a mão pesada de verdade!

Recordo minha infância
quando eu era uma anciã
As flores morriam em minhas mãos
porque a dança selvagem da alegria lhes destruía o coração
Recordo as negras manhãs de sol
quando era criança
quer dizer ontem
quer dizer há séculos
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e devorou minhas esperanças

Senhor
A gaiola se tornou pássaro
Que farei com o medo

[4] Já estou bastante repetitiva com post anteriores, mas como falar de "frases para não esquecer" e deixar de citar aquele trechinho de "Terra dos homens", do Exupéry, que sempre me chega tão forte?

Nada, jamais, na verdade, substituirá o companheiro perdido. Ninguém pode criar velhos companheiros. Nada vale o tesouro de tantas recordações comuns, de tantas horas más vividas juntas, de tantas desavenças, de tantas reconciliações, de tantos impulsos afetivos. Não se reconstroem essas amizades. Seria inútil plantar um carvalho na esperança de ter, em breve, o abrigo de suas folhas.

[5] Trazendo para uma perspectiva menos intimista e mais engajada com o mundo, esta citação do Eduardo Galeano, presente no livro "O mundo de pernas pro ar", resume bem a maneira como funciona a dinâmica das coias hoje em dia:

O mundo ao avesso nos ensina a padecer a realidade ao invés de transformá-la, a esquecer o passado ao invés de escutá-lo e a aceitar o futuro ao invés de imaginá-lo: assim pratica o crime, assim o recomenda. Em sua escola, escola do crime, são obrigatórias as aulas de impotência, amnésia e resignação. Mas está visto que não há desgraça sem graça, nem cara que não tenha sua coroa, nem desalento que não busque seu alento. Nem tampouco há escola que não encontre sua contra-escola.

[6] E sobre a atualidade, o autor mexicano Julián Herbert nos diz bastante sobre nossa relação com a literatura em "Canção de Findar":

Observações como esta me deixam pessimista sobre o futuro da arte de narrar. Não lemos nada e exigimos que esse nada careça de matizes: ou vulgar ou sublime. E, pior: vulgar clichês, sublime sem proparoxítonas. Higienicamente literária. Eficaz até na frigidez. No melhor dos casos, um romance posmo não passa de regionalismo trasvestido de cool jazz e/ou pedantes discursos de Kenneth Goldsmith's style que demoram cem páginas para dizer o que Baudelaire gastava em três vocábulos: spleen et ideal.

[7] Não podemos nos esquecer de Guimarães Rosa nos deslocando da nossa zona de conforto:

"E se as unhas roessem os meninos?"

[8] Nem de Sêneca falando da Brevidade da vida:

Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de grandes tarefas. (...) Desse modo, não temos uma vida breve, mas fazemos com que seja assim. Não somos privados, mas pródigos de vida. Como grandes riquezas, quando chegam às mãos de um mau administrador, em um curto espaço de tempo, se dissipam, mas, se modestas e confiadas a um bom guardião, aumentam com o tempo, assim a existência se prolonga por um largo período para o que sabe dela usufruir. 

[9] Outra citação de que sempre me recordo é, na verdade um poema do Pessoa, chamado Agnosticismo superior:

Foi-se do dogmatismo a dura lei
E o criticismo não foi mais feliz.
«Nada sei» o Agnóstico enfim diz...
Eu menos, pois nem sei se nada sei.

[10] E talvez a frase mais clichezona ever, mas que me acompanhou grande parte da minha vida:

Conheça-te a ti mesmo.

Mas só em teoria, porque quanto mais me conheço, menos me conheço.


A segunda parte virá em breve. Falarei de filmes <3 

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9 comentários:

  1. Gostei muito das suas escolhas. O poema de Alejandra Pizarnik é perfeito. Mas a frase "Conheça-te a ti mesmo." é a mais completa reflexão com a qual já me deparei. É simples e completa.

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    1. Oi, minha querida!
      Que bom que vc gostou das frases <3
      A Pizarnik é a coisa mais phoda do planeta, acho um ultraje que ela seja tão pouco conhecida no Brasil e no mundo.

      Um beijo, sua lindaa <3

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  2. Salieri... Por que motivo seu blog é sempre tão lindo? Sério da vontade de não sair... O post de hoje PRECISA continuar, pois simplesmente ficou lindo, uma graça, nada raso, nem muito profundo também... Ficou, como tomar café com um amigo que não se vê a muito tempo e conversar por horas... Bah eu amei!
    Patrick René

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    1. Oi, meu querido!
      Que bom que gostou! Seu feedback é sempre uma honra!
      Um beijo grande =D

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  3. Nossa!
    Estava pensando em me arriscar participar dessa blogagem coletiva mas acabei de perder a coragem...
    Até poderia fazer em partes (foi uma ótima ideia, assim não fica massante, né?) como tu... porém nem daria tempo pra mim e depois de ler a tua primeira parte (já vou ler a segunda)... "cabou" pra mim! hahahaha
    Amei!!!

    Um beijo.

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    1. Nha, podia ter feito a postagem, aposto que ia sair frases muito ninjas daqueles filmes maras que você vê.

      Ainda vou esperar =D

      BJo!

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  4. Olha Lady Salieri...tô curtindo muito seu blog, e aprendendo bastante também.
    Bjs

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  5. Eu não conhecia Alejandra Pizarnik. Fiquei encantada, vou procurar depois.
    Hoje é dia de visitar blogs que sigo, como a postagem mais recente eu já tinha comentado aí vim parar aqui, mas adorei, aliás conheci tanta gente boa, e a Alejandra foi a que mais me identifiquei. bj

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