15.11.15

Sobre finais de ano, tragédias e intolerância

15.11.15


Em primeiro lugar, eu queria muito fazer um post tripartido sobre as frases para seguir o Topic of the month, porém, diante das últimas notícias, não consegui. Pelo menos não antes de escrever este post.

Em segundo lugar, não gosto de ser muito pessoal no blog, apesar de este ser um blog pessoal, porque me sinto bastante ridícula emitindo minha opinião sem antes estudar a respeito daquilo que estou opinando, porque... vide internet e a "bobajada" que a gente lê todo dia. Não gosto de contribuir para aumentar isso.

Desse modo, entendam isso como um desabafo. E sintam-se à vontade para me orientar nas minhas desorientações. Nisso tudo, se tem uma coisa de que tenho consciência, é da minha mediocridade. Não rejeito conselhos nem conhecimento.

A verdade é que fim de ano é a época mais deprimente da vida para mim, porque, na minha cabeça, representa uma série de coisas que eu simplesmente abomino. Acho insuportável que exista uma época para que as pessoas se sintam mais solidárias e pratiquem várias boas ações que não praticam o ano inteiro "porque é natal". Também me soa incompreensível as reuniões familiares que as pessoas atendem contra a vontade e toda aquela fartura que parece obrigatória quando não o é em outras ocasiões. Não sei, na minha opinião, as pessoas deveriam fazer isso quando quisessem fazê-lo e não se ater à prática alienada do ritual. Sei também, por outro lado, que rituais são importantes. Enfim...

A isso ainda se alia aquela visão infantil de que o ano está acabando, aquela vontade de fazer planos para o próximo ano, e nós aderimos à coisa toda talvez para fugir da ideia da continuidade infinita, mais além de nós mesmos. Sei lá. Também não suporto ter que fazer essas reflexões a la Simone de "então é natal, o que você fez" e do que fazer no ano que se inicia. Não sei sobre nem uma coisa, nem outra. 

Em relação a 2015, todavia, estive até bem contentinha com a ideia de pensar que o ano acabaria, porque não foi fácil em vários âmbitos, no pessoal principalmente. No entanto, as coisas se ajeitaram. 

Agora, engraçado pensar que o primeiro ano cujo fim não me deprimiria tanto, é o ano cujo fim mais me deprime ever, porque é o mais conturbado de que tenho notícias ultimamente. Perdoem a memória ruim, qualquer coisa. Falo por mim e pelo nível com que as coisas me afetaram.

Primeiro, uma menina quase é estuprada no campus da universidade. Ali pertinho da minha vida, num bloco que eu costumo frequentar. Toda mulher sabe que estupro é nosso maior medo em qualquer lugar. E isso sempre representa nossa maior fragilidade. É mais do que humilhante, se houver uma palavra para isso. A menina não chegou a ser estuprada, de fato, mas isso não anula a gravidade do fato. Como diz um poema do Ulisses Tavares, acho: "vão-se os anéis, ficam-se os medos".

Depois uma mulher é morta, vítima de feminicídio, aqui a quatro ruas da minha casa (olha que engraçado, o corretor não reconhece "feminicidio". A sociedade também não.). Foi às onze da manhã, na frente de uma audiência enorme, porque ali perto tem um sacolão e um restaurante... A única coisa que eu penso disso é que ser mulher implica viver em estado de sítio. E que o outro é um abismo. A gente não se aproxima de abismo, muito menos brinca perto dele. 

Pra completar o quadro, as tragédias de Mariana e os ataques na França noticiadas nesses últimos dias...

Sério, eu pensei que já tinha sentido todas as matizes de indignação que uma pessoa podia sentir, até ver essa notícia sobre a "morte do rio doce". Nossa, me fez perder a vontade de viver e de ser uma pessoa. Eu não posso ser da mesma "espécie" de quem fez isso. É complicado falar até agora. A gente destruiu um mundo inteiro. Isso devia ser coisa de chorarmos o resto da vida, de ficarmos verdadeiramente putos, de fazer protesto e o escambau. Tanta gente enchendo a paciência, falando sobre a fragilidade dos nossos recursos naturais, sobre economizar água, a gente lá, economizando gota a gota, pra uns filhos da puta MATAREM UM RIO INTEIRO, prejudicar a vida de mais de 500 mil pessoas! Danos IRREPARÁVEIS! Espécies inteiras EXTINTAS. Não, gente, sério... 

E daí eles me passam uma reportagem, mostrando o pessoal da vila de Bento Rodrigues estando temporariamente num hotel de 5a, como se aquilo tivesse resolvido a vida deles. Para, né? E a empresa se "compromete" a comprar casas para essas pessoas, como se a única coisa que elas tivessem perdido fosse uma casa... Sem comentários.

Pessoal de Valadares precisando de doação de água... Porque as desgraças de uns empresários mataram UM RIO... Não é um córrego, não é piscininha, não é uma lagoa, não é uma represa: UM RIO. Inteiro. Porra, gente. Nessa crise hídrica. Ninguém fala dos caras, vão culpar a Dilma, porque a Dilma é monarca do Brasil. Na verdade, se não deu pra entender até hoje, talvez esse seja o momento de entender que os verdadeiros governantes desse Brasil são os "mega-empresários", porque também repudio a subserviência do governo frente a essa tragédia. Mas o governo não é só Dilma.

E como se não bastasse, diante disso tudo, me vem uns revoltadinhos do facebook ficar comparando tragédia. 

Ai, mas nenhum francês ficou de luto quando pegou fogo na boate Kiss.

Nenhum francês sabe o que está havendo em Mariana.

Ai, vocês ficam falando da França, mas olha o Brasil...



Sério, gente? É tudo o que vocês têm pra dizer diante do que estamos vivendo nos últimos dias?

E, ao se pronunciar dessa maneira, o outro responde xingando, mais outro xinga o que xingou antes. E outra bola de lama. Tóxica também, diga-se de passagem.

Por outro lado, não descarto que a exibição excessiva de notícias sobre os ataques na França queiram "esconder" o que está acontecendo em Mariana. Mas, ainda assim, uma tragédia não anula a outra, nem se medem, nem se comparam. 

A gente tem mesmo é que parar de falar bobagem, olhar para essas situações e pensar no que pode fazer para ajudar. Mais além de orar, inclusive.

Em relação à Mariana, principalmente, vários grupos têm se mobilizado para fazer alguma coisa, vamos tentar nos unir a eles, fazer qualquer coisa que seja. Construir em vez de destruir. Porque o negócio já está suficientemente horrível.

A prefeitura de Mariana falou HOJE a respeito dos itens de maior necessidade para doação e de como enviá-los: 

O poeta Nuno Arcanjo (que foi de inspiração para que eu escrevesse o post) também disponibilizou vários links sobre grupos que estão se mobilizando: 

Neste blog de Mariana também tem várias informações sobre o ocorrido, sobre a Samarco, e nele estão linkados outros blogs que fornecem informações de como ajudar também as outras regiões afetadas pela lama, porque não é só Mariana, por onde a lama passou, acabou com tudo:

Um outro grupo que me pareceu interessante, chama-se "Pague, Samarco". Acho o nome muito pertinente para a questão toda, é o que eu mais quero ver, no final das contas: 


E procurem pelo facebook grupos que estejam se mobilizando sobre a causa. Abram vocês mesmo o seu e mobilizem sua comunidade. Vamos estar no conjunto daqueles que atuam, não daqueles que reclamam, porque esse grupo já está saturado u.u...

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10 comentários:

  1. Valdirene Vieira15 novembro, 2015

    Muito bom

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    1. Obrigada, Valdirene!
      Bjo e obrigada pela visita <3

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  2. Concordo com você , seu desabafo foi bem válido . É tanta coisa ocorrendo que se formos parar para pensar não acreditamos que seres humanos são cases de fazer tamanhas atrocidades . Também estou cansada de muitos nas redes sociais falarem que dão mais importância ao atentado na França do que a tragédia em Mariana . E cansativo .

    http://karoline-caro-sonhador.blogspot.com.br/2015/11/sonhe.html

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    1. OI, minha querida!
      Obrigada pela leitura desse desabafo, fico contente que eu não tenha estado tão "por fora" xD.

      Bjo!

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  3. Imagine qual o sentimento de uma bióloga para com o maior desastre ecológico da história? Eu já chorei tanto - e não estou sendo exagerada ou querendo fazer média - em pensar em como será daqui pra frente a vida dessas pessoas, em todos os animais que provavelmente já não serão vistos e, principalmente, em um dos Rios mais bonitos que havia no Brasil.
    Eu fico boquiaberta com a ambição que rege os seres humanos. Essa ambição que é tão tóxica quanto ao lamaçal que Mariana recebeu e que o Espírito Santo irá receber.

    Me pergunto diariamente até quando tudo será assim.

    beijos
    Juro de Mindinho

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    1. NOssa, gente, é verdade, imagino mesmo você na sua condição de bióloga vendo essa tragédia.
      Muito ruim até hoje minha indignação continua e ainda mais vendo a Samarco mentir falando que essa água naão é tóxica =(

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  4. Seu desabafo foi super válido, mas tem alguns pontos do seu texto que você precisa reconsiderar e pensar muito melhor pra usar as palavras. As pessoas precisam entender que as tragédias de Mariana e Paris, embora sejam igualmente tristes, não tem NADA a ver uma com a outra. O que aconteceu em Mariana, ao contrário do que você disse, não foi culpa de nenhum "filho da puta" - seja lá quem for a pessoa que você está se referindo, mas sim uma catástrofe da natureza e impossível de ser evitada. Já a tragédia de Paris foi um ataque terrorista, uma coisa premeditada e que tinha SIM como ser evitada, bastava os malditos terroristas não existirem nesse mundo que já é feio o suficiente.
    As pessoas precisam discutir menos "qual tragédia é maior" e botar a cabeça pra funcionar mais, porque essas picuinhas são infundadas. Por um mundo com menos discussão e mais cérebro informativo.
    Pense, analise e reveja seus conceitos sobre as tragédias. Não devemos separá-las por maior ou menor importância, mas sim pela forma como elas ocorreram.

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    1. Oi, Mari, borigada pela visita, e obrigada pela leitura.
      Deixa-me apenas esclarecer meu modo de me expressar, que te causou tanto desconforto (e que respeito, de verdade).

      Eu concordo com você que a tragédia de Mariana e da França não se medem, nem se comparam, acho, inclusive, que deixei isso muito bem claro nas minhas considerações (no entanto, posso estar enganada e se assim for reverei o texto). Mas não estou de acordo contigo que foi a tragédia de Mariana foi uma catástrofe ambiental, impossível de ser evitada. Já é comprovado que essa forma de criação de barragem como são as de Minas, são apenas mais baratas, mas muito ultrapassadas e perigosas. Além do mais, não houve inspeção nessas barragens, ou seja, a empresa estava a todo o tempo assumindo para si mesma um risco muito grande. Pra mim, foi incompetência, sim. É a mesma coisa de alguém dirigir bêbado e causar um acidente fatal a vários inocentes. Ao beber, a pessoa assume para si mesma um risco muito grande que pode se concretizar ou não. Pra mim, a tragédia de Mariana é a mesma coisa de um ataque terrorista, e um muito fatal, porque suas consequências serão vivenciadas por décadas. E é sim culpa de uma [empresa] filha da puta, que tá muito pouco se importando com a natureza e com os recursos hídricos que atualmente são mais importantes que ouro. Enfim, é assim que eu vejo as coisas.

      De resto, concordo, e como te disse, acho que deixei muito claro no meu texto.

      Um beijo, minha querida, mais uma vez, obrigada pela leitura <3

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  5. Olá Salieri,
    Fui conferir no seu banner se fazia link...e fez. Aí me deparei com essa postagem SOS MARIANA, e gostei tanto! Realmente, uma vez que o leite já foi derramado, o que podemos fazer? Vou entrar em todos os endereços pra ver o que é que eu também posso fazer pra colaborar. Um abraço.

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    1. O que me confortou, de certo modo, é que as ajudas aconteceram de modo muito eficiente. Por outro lado, as consequências disso, vivenciaremo-las por décadas =(.

      Bjo, minha querida!

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