3.10.15

Uma (im)possível definição de literatura

3.10.15


Jogando direto, na lata: temos de entender logo de início que, sendo a literatura uma ciência intrinsecamente inexata, é impossível a apresentação de leis universais para a solução de seus problemas. Isso não ajuda muito, verdade? Mas a tendência é piorar conforme vamos pensando sobre isso. Vejamos:

O estudo dialético da literariedade – ou seja, estudar essa questão do literário vs não-literário – não está isento de ambiguidades. O teórico Terry Eagleton considera, inclusive, que não é possível tratar o tema sob um ponto de vista “neutro”, não valorativo. 

O teórico mencionado, em seu prefácio à obra “Introdução à teoria literária” reflete sobre os problemas de se estabelecer uma definição da literatura, partindo de várias definições que circulam no meio acadêmico.

A primeira delas seria aquela que delimita a literatura como escrita “da imaginação”, um tipo de escrita que não é totalmente verídica. Entretanto, levando em consideração que escritos de autores como Francis Bacon, Descartes e Pascal, supostamente de cunho filosófico, são escritos considerados literários, o crítico observa que a distinção entre “fato” e “ficção” não procede. Para ilustrar esse “não procedimento”, o crítico nos mostra que, dentro das “novels” inglesas do fim do séc XVI e início do XVII, estão tanto acontecimentos factuais quanto imaginados e, para a questão do fictício, afirma que muitas das composições fictícias estão fora do âmbito da literatura, como grande parte das histórias em quadrinhos. 

Outra definição muito usada é a do uso peculiar da linguagem nos textos literários, o que remete inclusive, a Roman Jakobson (aquele teórico que estabeleceu as funções da linguagem, sabem?), quando este afirma que a linguagem literária “exerce uma violência organizada contra a fala comum”. A literatura, então, transformaria a linguagem, afastando-se da fala prosaica (ou seja, a do dia-a-dia) e desviando a atenção para si mesma. Nisso residiria sua característica específica, pois a deformidade da linguagem comum causaria no leitor um “estranhamento” — ou uma desfamiliarização — o que propiciaria uma mudança de todo o seu mundo cotidiano, a partir de um deslocamento do seu ponto de vista.

É até bom fazer um parêntese aqui para dizer que esta foi a definição de “literário” atribuída pelos formalistas russos, um grupo de teóricos que surgiu na Rússia, durante a segunda década do século XX e que influencia até hoje nossa maneira de ver o literário. Bem mais até do que gostaríamos, sério. 

Os formalistas, então, consideram a literatura como uma forma “elaborada” de linguagem, em oposição a uma linguagem “normal”, que usamos cotidianamente; mas, e oposição a essa ideia, podemos notar que a fala comum também pode nos surpreender às vezes, e até os próprios estudiosos, quando redescobrimos nessa fala um valor e um grau de criatividade do qual não nos lembrávamos. Imagina, existe tanta coisa legal escrita “como se fala”, de certo modo, que não podemos ignorar, simplesmente. 

E, por último, Eagleton mostra a definição de que a literatura é um tipo de discurso “não-pragmático”, enfocado mais na maneira como se diz do que naquilo que se diz. 

Mas essa também é um tipo de definição que carrega problemas, porque esse conceito “torna dependente a maneira pela qual alguém resolve ler, e não da natureza daquilo que é lido” (p. 11). Afinal, há obras que já nascem como literárias, outras chegam à condição de literárias e para outras a condição de literária vem mais de uma imposição. 

Como exemplo, o teórico cita uma situação de um sujeito olhar os horários do trem, não para saber as partidas e as chegadas, como seria de praxe, né, mas para refletir sobre a velocidade da vida moderna. Desta forma, se estaria lendo aqueles horários como literatura. 

Eagleton termina seu prefácio mostrando que se não é possível ver a literatura como uma “‘categoria descritiva’, ‘objetiva’, também não é possível dizer que a literatura é apenas aquilo que, caprichosamente, queremos chamar de literatura”. Sabemos somente que ela não existe como os seres e que as atribuições de valor são historicamente variáveis, tendo certa ligação com as ideologias sociais. 

De todos os modos, nada disso impede que se sigam fazendo aproximações, sejam os poetas ou os críticos e teóricos, do conceito de literatura. 

Terminemos, então, com a aproximação apresentada pelo teórico Afrânio Coutinho:


A Literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio.
Os fatos que lhe deram às vezes origem perderam a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à imaginação do artista. São agora fatos de outra natureza, diferentes dos fatos naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social. O artista literário cria ou recria um mundo de verdades que não são mensuráveis pelos mesmos padrões das verdades factuais. Os fatos que manipula não têm comparação com os da realidade concreta.
São as verdades humanas, gerais, que traduzem antes um sentimento de experiência, uma compreensão e um julgamento das coisas humanas, um sentido da vida, e que fornecem um retrato vivo e insinuante da vida, o qual sugere antes que esgota o quadro.
A Literatura é, assim, a vida, parte da vida, não se admitindo possa haver conflito entre uma e outra. Através das obras literárias, tomamos contato com a vida, nas suas verdades eternas, comuns a todos os homens e lugares, porque são as verdades da mesma condição humana.
(http://www.amigosdolivro.com.br/lermais_materias.php?cd_materias=4835)

Referências:
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura. Uma introdução. São Paulo, Martins Fontes, 1977, IX a 22.



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4 comentários:

  1. Elton Rodrigues07 novembro, 2015

    Nossa, confesso que abri o texto com bastante curiosidade pra ver como tu tentaria explicar o que é literatura, essa coisa que a gente estuda e que ninguém consegue dizer realmente o que é. Confesso que me surpreendi um pouco quando vi o Terry, porque esse foi o primeiro texto que eu li na faculdade em Teoria Literária I, tipo, a pessoa toda iludida achando que ia "aprender" o que era literatura e já veio a professora falando que essa coisa não se dá pra definir. Foi realmente muito legal ler o post aqui porque eu me lembrei de várias coisas que eu li naquela época e que, agora, lendo de novo, fizeram muito mais sentido.

    E, bem, nesse semestre, uma professora voltou ao conceito, porque a gente tá trabalhando a questão dos mecanismos de inclusão (e, portanto, exclusão) no cânone literário e tudo mais, e veio essa necessidade de falar o que era literatura. Se apoiando em Pierre Bourdieu, em "A economia das trocas simbólicas", vendo principalmente o capítulo do "Mercado das trocas simbólicas", ela foi mostrando pra gente como funciona esse mercado em que há a produção erudita (feita para durar), apoiada em críticos que as mantém e, ao mesmo tempo, são mantidos por elas, e a produção cultural (pro povo), e mostrou como a literatura poderia ser definido por um mercado, sabe? Aqueles livros de séculos atrás que ainda são editados, aqueles críticos de hoje que fazem pesquisas em livros de mil e lá vai bolinhas (como diria mamãe), o modo como funciona a edição, como as instituições (escolas e universidades) mantém isso e tudo mais.

    Claro, isso foi só uma maneira, eu já li um que procurava por traços que dariam a ideia de algo interior que transformasse aquilo literatura (creio que tenha sido Acízelo falando do conceito de literariedade do Jakobson), teve outro que ia pela estilística de determinado autor/obra/período literário, enfim. Comentei mesmo porque eu não vi nenhum comentário e porque eu sei como é bom quando a gente recebe um comentário.

    Até,
    Sali!

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    1. Oi, Elto, seu lindo <3

      Então, eu não conheço essa leitura do Bordieu, mas está aqui anotadinha, porque preciso ler urgentemente <3. Quero muito fazer isso que você citou na sua trajetória, ler vários autores que apontam vários caminhos, de modo a mostrar como essas coisas podem ser pensadas. Pelo que você me falou do Bordieu, bom, ele parece tentar definir a literatura por algo externo a ela mesma (o mercado), o que me soa tão complicado como as tentativas do Eagleton, mas posso estar falando bobagem porque realmente não tenho nenhum conhecimento a respeito dele. De todos os modos, o próprio Eagleton também deixa a entender que é literatura o que um grupo de autoridade considera que é literatura xD, mas aí estamos falando mais do cânone mesmo. De todos os modos, ainda fica uma grande dúvida sobre como diferenciamos o que literário do que não é. Sei lá.

      Mas gostei pacas do seu comentário, vou correr atrás dessas referências. Depois me fala mais dessa sua matéria, porque é algo que me interessa muito.

      Um beijo!

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  2. Eu faço Letras e não sou fã de TL não, mas esse teu post é bem esclarecedor... :)

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    1. Olá, minha queridaa =D
      Obrigada pela leitura, em primeiro lugar <3
      Que bom que a leitura serviu para algo xD.

      Espero te ver aqui mais vezes.

      Bjo bjoo!

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