15.9.15

Das funções da literatura

15.9.15



É de conhecimento comum que a escola – seja no ensino fundamental ou no ensino médio – reserva à literatura, muitas vezes, um "lugar" errôneo, quando a coloca como meio para se trabalhar a gramática ou modelar comportamentos. Essa postura conservadora termina promovendo uma visão reducionista do papel da literatura, há de se considerar que o texto literário também é uma oportunidade de aprender, refletir, comparar, discriminar, viajar, divertir-se, amadurecer, transformar(-se), viver, desenvolver a sensibilidade estética e a expressão linguística, adquirir cultura, estar em contato com as distintas visões de mundo, etc.

Consequentemente, observamos que a situação mencionada se torna parte de um círculo vicioso, tendo em conta que a maneira como a literatura é tratada em sala de aula cria certa resistência no aluno com relação à leitura dos textos literários, e esta resistência se tornará um obstáculo para o ensino dessa disciplina. Além disso, a resistência em ler também afetará a desenvoltura do aluno para a escrita, o raciocínio crítico, dentre outros fatores, reforçando os lugares comuns do pensamento social de que “brasileiro não lê”, que “detesta livros” e que “detesta literatura”. 

Mas será que é assim mesmo? Não é uma surpresa ver que o mesmo aluno que “detesta livros” é aquele que lê de uma vez só uma coleção de livros como Harry Potter (e afins) cujos volumes possuem mais de 350 páginas e sem nenhuma gravura? O problema é, realmente, os livros? 

Em uma de suas conferências, o escritor argentino Jorge Luis Borges (1978) define o livro:

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação (BORGES, 1978, p.23)

E o escritor italiano Umberto Eco, em seu livro "Ensaio sobre a literatura", classifica a literatura como um “poder imaterial” que nos cerca, aquele tipo de poder que não se avalia o peso, mas que de certa maneira pesam. Para o escritor italiano:
                                  
Entre esses poderes, arrolarei também aquele da tradição literária, ou seja, do complexo de textos que a humanidade produziu e produz, não para fins práticos (como manter registros, anotar leis e fórmulas científicas, fazer atas de sessões ou providenciar horários ferroviários), mas antes gratia sui, por amor de si mesma – e que se leem por deleite, elevação espiritual, ampliação dos próprios conhecimentos, talvez por puro passatempo, sem que ninguém nos obrigue a fazê-lo (ECO, 2002, p.9)

Daí, surge o inevitável questionamento acerca do caráter utilitário da literatura, afinal, se não possui fins práticos, para quê exatamente serve?

Na continuação de seu ensaio, o próprio Umberto Eco responde a esta pergunta, afirmando que, sendo um "bem que se consuma gratia sui, não deve servir para nada".

Todavia, se a gente se desapega dessa visão "pragmática", há como perceber as muitas funções da literatura para a vida individual e social, no caso específico, do aluno.

Umberto Eco cita, primeiramente, o fato de que, com a literatura, a língua é mantida em exercício como patrimônio coletivo. A língua é viva e sofre modificações de acordo com a região, a faixa etária, as "tribos juvenis", etc. Entretanto, por mais que siga os "próprios caminhos", ela (a língua) é "sensível às sugestões da literatura". Como exemplo, o escritor italiano cita Dante e a “Divina Comédia”, que permitiu a unificação do italiano. Uma mudança ocorrida de forma lenta, evidentemente, no entanto, graças à literatura. Mas Dante não seria o único exemplo:
Falei antes de Dante, mas pensemos no que teria sido a civilização grega sem Homero, a identidade alemã sem a tradução da bíblia feita por Lutero, a língua russa sem Puchkin, a civilização indiana sem seus poemas fundadores. (ECO, 2002, p.11)

Portanto, podemos observar, inicialmente, que a literatura, ao contribuir para formar a língua, "cria identidade e comunidade". 

O autor ainda afirma que 

muitos jovens desgraçados que, reunidos em bando sem objetivos, matam jogando pedras em viadutos e ateando fogo em uma menina (...) o fazem porque restam excluídos do universo do livro e de lugares onde, através da discussão e educação, poderiam chegar até eles os ecos de um mundo de valores que chega de e remete a livros". (ECO, 2002, p.11)


Vemos, então, a partir do trecho acima, que a literatura é, antes de tudo, um exercício de sensibilidade, o que nos remete ao discurso da escritora e filósofa Iris Murdoch que vê, na contemplação artística e no estudo da linguagem, formas concretas de nos aproximarmos do que ela chama de “ideia do bem”:

...quando a forma é usada para isolar, explorar, mostrar algo que é verdadeiro, que nós somos mais altamente tocados e iluminados. Platão diz (República, VII, 532) que os technai têm o poder de conduzir a melhor parte da alma à visão daquilo que é mais excelente na realidade. Isso descreve bem o papel da grande arte como educadora e reveladora. Considere o que aprendemos contemplando os personagens de Shakespeare ou Tolstoi, ou as pinturas de Velásquez ou Ticiano. O que aprendemos aqui é algo acerca da qualidade real da natureza humana, quando ela é vista pelo olhar justo e compassivo do artista com uma clareza que não se encontra na agitação egoísta da vida cotidiana. (MURDOCH, 1969, p.)


A literatura seria, portanto, uma maneira não de fugir da realidade, ou buscar consolo na fantasia, como acredita o senso comum. Seria, melhor dizendo, uma maneira de superar a realidade que nos cerca.

Entretanto, devemos nos lembrar sempre de que um livro fechado não é mais que “um cubo de papel e couro, com folhas. Mas, se o lemos algo inusitado acontece” (BORGES, 1978, p.30). Todavia, é igualmente importante ter em mente que a leitura de obras literárias nos obriga a um exercício de fidelidade e de respeito na liberdade de interpretação. Sabemos que as obras literárias constituem uma “obra aberta” – isto é, considerando a palavra “texto” como tecido, sabemos que há espaços vazados que o leitor deve preencher. Entretanto, temos que tomar o cuidado para não cometer o que Umberto Eco chama de heresia crítica, ou seja, o fato de que uma obra literária possa ser interpretada livremente, lendo nelas tudo o que é suscitado na mente do leitor. É claro que há uma liberdade de interpretação nas obras, entretanto é necessário respeitar profundamente aquilo que o autor chama "intenção do texto” (chamando a atenção para o fato de que ele fala em intenção do texto, e não do autor). Esta intenção são informações que o próprio texto assinala com soberana autoridade “aquilo que deve ser assumido como relevante e aquilo que não podemos tomar como ponto de partida para interpretações livres” (ECO, 2000, p.13). Para esclarecer sua afirmação, o escritor cita dois casos, a saber:

 O primeiro se trata de uma passagem do livro “O vermelho e o negro” de Stendhal, em que Julien Soriel vai até a Igreja e dispara em Madame de Renal. Depois de ter apontado que seu braço tremia, Stendhal escreve que Julien dá o primeiro tiro e não acerta a vítima, em seguida dispara pela segunda vez e a senhora cai. Para o braço trêmulo de Julien há duas leituras: ele pode não haver ido à Igreja com uma firme intenção homicida, sendo levado por um impulso passional, ou pode haver ido com a intenção de matar, mas fosse um covarde. Ambas as leituras são aceitas.

O segundo caso é tirado do início de “Os três mosqueteiros”, em que é narrado que d’Artagnan chegou a Meung montado em um sendeiro de quatorze anos, na primeira segunda-feira de abril de 1625. Quem tiver um bom programa de computador saberá que aquela segunda-feira se tratava do dia 07 de abril. Entretanto, o fato de que aquela segunda-feira tenha sido o dia 07 de abril, o texto não o torna relevante.

Encontrar, pois, o ponto de equilíbrio entre o prazer da leitura e a interpretação respeitosa do texto literário deve ser uma das metas do professor, visando à verdadeira aprendizagem e à troca de experiências entre alunos e alunos e, até mesmo, entre professores e alunos. Sendo assim, seria importante pensar no ensino de Literatura por meio da compreensão do fato literário dentro do contexto sócio-histórico-econômico, a criação ou desenvolvimento do espírito crítico do leitor (o que se dá dentro do exercício de sensibilidade, já citado); a percepção do fato literário como objeto de linguagem, a capacitação para comparar textos e o desenvolvimento do uso da linguagem em diferentes formas, tudo isso visando à apreciação do texto literário e estimulando o prazer dessa leitura.

Já dizia o filósofo Montaigne que “o conceito de leitura obrigatória é um conceito falso”. Borges complementa seu raciocínio ao dizer que, para si, a leitura era uma forma de felicidade. E Proust nos alerta para o fato de que o texto literário não explica nada, entretanto, nos incita o tempo todo, plantando em nossos corações os mais diversos desejos. Sendo assim, a literatura, revoluciona o espírito humano. Isso obviamente não se faz apenas no âmbito do conteúdo apresentado (como a “moral da história), mas também por meio da experiência estética, daquilo que vai tirar o leitor da sua “zona de conforto” e levá-lo longe a outro ponto de vista.

Todavia, a função mais importante da literatura, de acordo com Umberto Eco, é o fato de que ler um conto também quer dizer ser tomado de uma tensão ao descobrir que as coisas aconteceram para sempre de uma maneira que vai além dos desejos do leitor. E é necessário que ele aceite essa frustração e, por meio dela, experimente o colapso do destino.

No fim, a literatura, por meio de uma lição “repressiva”, além de ensinar os limites da vida, também ensina a morrer: 

“Creio que esta educação ao Fado e à morte é uma das funções principais da literatura. Talvez existam outras, mas não vêm à mente agora” (ECO, 2002, p.23).

Referências:

BORGES, Jorge Luis. Oral. Barcelona, Bruguera, 1985.
ECO, Umberto. Sobre a literatura. Ed. Record. Rio de Janeiro, 2002, 308 p
MARQUEZ, Gabriel García. Cheiro de Goiaba. Rio de Janeiro, Record, 1982.
PROUST, Marcel. Sobre a leitura. Trad. Carlos Vogt. Campinas: Pontes, 1989

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5 comentários:

  1. É interessante como parece que a Literatura na escola so agrada (isso qndo agrada) àqueles que realmente tiveram algum estímulo anterior e que aconteceu externamente àquele espaço. Achei o seu post bem interessante para fazer a gente pensar em como algo que deveria ser um prazer é confundido com 'obrigação', muitas vezes por uma ação tão boba, quanto chamar uma leitura de obrigatória.
    Sobre o psot que você comentou lá no Mesa...pois é...eu amo a Disney com todas as minhas forças! Mas não posso ser cega em relação à esse amor, se eles produzem algo que eu considero aquém do que eles conseguem fazer, eu vou criticar. Foi assim no post sobre Malévola também...doloroso, mas necessário.
    Beijos e estou aguardando o seu banner ;D

    http://mesadecafedamanha.blogspot.com

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  2. Acho que os professores de literatura (falo dos da minha época) leem até menos que seus alunos. acabavam repassando o conteúdo velho nada atrativo, tornando a aula enfadonha e pouco incentivando o hábito de ler. O meu incentivo veio de casa, meu recorde foi 28 livors em um mês, habito que infelizmente fui largando com o passar do tempo e excesso de afazeres, mas me "obrigo" a ler ao menos dois por mês. Meu projeto de tcc é sobre leitura: o aluno que não tem o costume de ler, não desenvolve boa eloquência, e tem dificuldade nas diversas disciplinas por não conseguir interpretar os conteúdos.

    Desconstruindo blog

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  3. Excelente texto!
    Tive sorte de ter pais leitores que, com o exemplo e incentivo, formaram filhos leitores precoces. Quando cheguei aos 15 anos já amava Machado de Assis e Eça de Queirós... ainda bem que ninguém conseguiu estragar essa experiência.
    SUA ESTANTE
    Gatita&Cia.

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  4. Muito boas reflexões Salieri. No meu tempo de ensino médio, era o terror da maioria dos meus colegas e de outros alunos conhecidos meus as tais "fichas de leitura". Tinha que comprar tal livro por que caía na prova. Muitos deles não liam, não gostavam e alguns (os que eu continuei a ter contato, isso era um tempo em que as redes sociais eram incipientes (eu já vejo os 40 no horizonte, então na minha época de ensino médio ninguém trocava msg pelo Whatsapp, rs!) só foram gostar mesmo de ler após a idade adulta, geralmente os que foram pras áreas de ciências humanas, história, letras, filosofia. Acho que ainda hoje há algo de muito errado pra que a maioria da estudantada não veja os livros como algo que possa alargar os horizontes, há um comportamento meio de consumo fragmentado da informação, repare: informação, no sentido de dados, não conhecimento. Uma coisa é eu dizer que eu moro na casa da rua tal, outra é eu contar o porquê de estar morando lá e como minha família foi parar nesse lugar, etc... Eu tb tive pais que me incentivaram a ler e pelos 18 anos, eu já devorava os modernistas, comecei e fiquei um monte de tempo nos da primeira geração, a de 22. Acho que por isso que sou meio rebelde, rs! Não tenho muito contato com o panorama de hoje do ensino de literatura e do modo como os livros são trabalhados nas salas de aula, mas pelo que vejo e escuto, parece que aquela sensação de que é um fardo permanece. O que se for verdade mesmo, é um pena.

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    1. Olá, meu querido, obrigada pela leitura =D
      Então, a verdade é triste pensar que do seu ensino médio (e do meu) pra hoje, mudou-se muito pouco no ensino da literatura. Já não existem as fichas como tais (lembro demais dessas paradas e odiava demais também), mas os professores fazem essas fichas com essas mesmas verificações inúteis que muito pouco têm a ver com uma apreciação da obra como tal.

      Ainda hoje, se você quiser "estragar" um livro, basta colocá-lo no ensino regular.

      Falo isso como professora.

      Mas é como você disse, é necessário, ao contrário de ver o livro como fonte de informação, vê-lo como fonte de conhecimento. Esse é seu diferencial. E eu costumava dizer muito para os meus alunos: a gente não lê livro pra entender, mas pra sentir. E eu costumava fazer muitas perguntas sobre como eles se sentiram lendo uma passagem ou outra.

      E a escola, na maioria das vezes, tem uma coisa que ME IRRITAA xD: fugir de temas polêmicos. Caramba, se esse espaço não serve para problematizar e debater temas polêmicos, onde então??? E a literatura sobrevive desses temas, se não se pode discutir isso, então é melhor cortar a literatura, porque ela não tem sentido nenhum. Aquelas, (correndo o risco de perder o emprego pra sempre xD), não ajuda, mas também não atrapalha xD.

      Mais uma vez, obrigada pela leitura, e adorei seu comentário =DDDD

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