10.5.15

Personagens com que me identifico

10.5.15



Na arte de um modo geral, aquilo que nos marca costuma estar ligado à comoção que determinada manifestação artística nos provoca, que nos permite apropriar do pensamento alheio, nos fundirmos e nos confundirmos a ele. Logo, de certo modo, nosso juízo de valor está relacionado ao nível de identificação que temos com determinada obra. 

Já tem um tempo que eu queria trazer uma lista com as personagens com as quais me identifico, porque acaba sendo uma oportunidade de falar sobre filmes, séries e livros, tudo aquilo sobre o que gosto de falar. Agora surgiu a oportunidade perfeita, com a blogagem coletiva do meu grupo do core (Blogs que interagem). Tentei ser muito ampla na minha lista e abarcar de livros até novelas. Foi divertido fazer essa compilação, porque até acabou traçando um perfil de quem eu sou. 

Enfim, espero que a lista desperte alguma coisa em alguém e sirva para alguma coisa. Não vou seguir ordens, acho que cada personagem tem seu mérito, independentemente de onde pertence. Vamos lá:

1. Floriano Cambará [Livro: O tempo e o vento - Arquipélago 1, 2 e 3, de Érico Veríssimo]




É bom ressaltar que tudo o que eu sei na vida sobre a Era Vargas se deve à leitura dos Arquipélagos de O tempo e o vento. Mas o que me manteve firme e forte mesmo na leitura foi a personagem Floriano Cambará. Pelo que eu me lembro (já tem mais 10 anos que li), Floriano é um intelectual que passa os três livros digredindo muito, à mercê do mundo e tentando escrever seu romance (que, no final das contas, é o próprio O tempo e o vento, no sentido de ser uma saga da sua família, os Terra Cambará). 

Já não lembro muitas coisas pontuais a respeito dessa personagem, porém tenho nítido o impacto que ler a história do Floriano me causou. Sentia profundamente que Veríssimo escrevia sobre mim sem nem nenhuma cerimônia, como se tivesse predito meu nascimento ou como se eu mesma fosse uma criação dele. Floriano, assim como eu, não conseguia viver sem "filtrar" no pensamento qualquer atitude e terminava vivendo a mesma coisa duas vezes, porque o empírico parece impossível de apreender, só o pensamento torna as experiências possíveis. Sem contar que tudo é material para sua narrativa; ele se agarra a todos os conflitos pormenorizadamente, porque tem certeza de que aquilo é importante para seu livro.



Uma fala de Floriano para degustação =P

— Uma das coisas que mais me preocupam — diz Floriano — é descobrir quais são as minhas obrigações como escritor e mais especificamente como romancista. Claro, a primeira é a de escrever bem. Isso é elementar. Acho que estou aprendendo aos poucos. Cada livro é um exercício. Vocês devem conhecer aqueles versos de John Donne que Hemingway popularizou recentemente, usando-os como epígrafe de um de seus romances. É mais ou menos assim: Nenhum homem é uma ilha, mas um pedaço do Continente… a morte de qualquer homem me diminui, porque eu estou envolvido na Humanidade… et cetera, et cetera. 
Tio Bicho cerra os olhos e, parodiando o ar inspirado dos declamadores de salão, murmura eruditamente 
— “And therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee.” 
— Estive pensando… — continuou Floriano. — Nenhum homem é uma ilha… O diabo é que cada um de nós é mesmo uma ilha, e nessa solidão, nessa separação, na dificuldade de comunicação e verdadeira comunhão com os outros, reside quase toda a angústia de existir.

2. Ligeia [Ligeia, de Edgar Allan Poe]




Não é à toa que Ligeia é um dos meus contos preferidos de Poe. Simplesmente, além de achar que a descrição que o narrador faz de sua amada no conto é a mais linda ever (o que gasta mais da metade do conto), a própria construção da Lady Ligeia, como uma mulher enigmática, fantasmagórica, intelectual e que mantém uma relação de parceria com o narrador da história, em que os dois compartilham os estudos e as leituras, faz com que eu me sinta totalmente representada na vida. Não preciso de mais.

Diga-se de passagem, além do conto, há diversos filmes sobre ele, feitos ao longo do tempo. O último, inclusive, saiu em 2009.

Deixo um trecho do conto para degustação =P:

Referi-me à cultura de Ligeia; era imensa, como nunca conheci em mulher alguma. Era versada em línguas clássicas e, tanto quanto os meus próprios conhecimentos em matéria de modernos dialectos europeus mo permitiam, nunca a apanhei em falta. Aliás, que assunto houve, entre os mais admiráveis, porque simplesmente os mais abstrusos da tão gabada erudição académica, ele?- que alguma vez eu tenha apanhado Ligeia em falta? De que modo singular e emocionante despertou a minha atenção, apenas ultimamente, este aspecto particular da natureza da minha mulher! Disse já que os seus conhecimentos eram tais como nunca vi noutra mulher; mas onde existe tão-pouco algum homem que tenha atravessado, e com êxito, todos os campos da ciência filosófica, física e matemática? Não vi então aquilo de que agora me apercebo claramente: que os conhecimentos de Ligeia eram imensos, extraordinários: contudo, dava-me suficientemente conta da sua infinita superioridade para me submeter, com infantil confiança, à sua orientação nos meandros do caótico mundo da investigação metafísica a que me dedicava absorvente mente durante os primeiros anos de casados. Com que enorme triunfo, com que vivido deleite, com quanto de tudo o que é etéreo na esperança eu sentia, quando ela sobre mim lançava, em estudos mal imaginados - quanto mais conhecidos -, aquela deliciosa perspectiva que a pouco e pouco se expandia diante de mim, ao longo de cuja estrada extensa, apetecível e jamais pisada eu acabava por conseguir atingir o objectivo de uma sabedoria demasiadamente divina para não ser proibida! 

Para quem quiser ler o livro, aqui de grátis: http://www.livros-digitais.com/edgar-allan-poe/ligeia/1

3. Antônio Salieri [ Filme Amadeus, de Milos Forman]




Se alguém tinha dúvidas a respeito de onde surgiu meu nick, não precisa ter mais. Justamente por causa do Salieri, do filme Amadeus, personagem vivido brilhantemente pelo ator F. Murray Abraham. Salieri devotou toda sua vida à deus a troco de ser um bom músico, mas então aparece no cenário de Viena a figura de Mozart, e quando ele se dá conta de que Mozart não passa de um meninote que aparenta não renunciar a prazer mundano nenhum em favor da música, que seu dom lhe vem naturalmente e é mais elevado que qualquer divindade, isso lhe causa uma crise de fé terrível e um reconhecimento absurdo de sua própria mediocridade.

Salieri consegue descrever todas as minhas angústias enquanto "artista". Fala na alma mesmo do quanto estamos dispostos a renunciar a tudo e a todos em prol da arte, e no final isso não servir de nada. E de quanto mais queiramos ser melhores naquilo que fazemos e não medirmos esforços para fazê-lo, tanto mais reconheceremos nossa incapacidade diante da elevação artística de outros. 

Para degustação, deixo a cena em que Salieri descreve a música de Mozart, uma das mais emocionantes para mim, que marca o reconhecimento dele daquilo que lhe importa:





4. Jo Harding [ Filme: Twister, de Jan de Bont] 




Trago um filme da infância, porque é impossível para mim falar de identificação sem falar do filme Twister e da Jo, personagem vivido pela Helen Hunt divosa. Acho que a Jo foi a primeira personagem com quem me identifiquei na vida. A primeira por meio da qual pude ver um filme e me sentir representada. O filme foi um sucesso estrondoso de bilheteria na época, e ter como protagonista uma mulher que não era dondoca, que não se preocupava com beleza, que não tinha medo de nada e caçava os tornados com mais obstinação que qualquer homem, bastou para fazer a minha felicidade. 

Apesar de o filme não ser grandes coisas, acabou tendo esse valor afetivo pra mim.

Neste videozinho aqui, fizeram a compilação dos melhores momentos. Adorei rever:





5. Dinky Bossetti [ Filme: A volta de Roxy Carmichael, de Jim Abrahams]




Embora quisesse, nunca tive a carinha bonitinha da Winona Ryder (xD), porém, eu, na adolescência, era esse naipe aí sem tirar nem por. Então, quando vi uma cena desse filme, na época em que a BAND passava filmes divertidos, tive que sentar pra ver. E acabei descobrindo que não só me sentia como a Dinky Bosetti por fora, mas por dentro também. Até hoje, quando revejo esse filme, acho incrível como eles trabalharam de forma legal o estereótipo do patinho feio com a Dinky. Eles conseguiram unir o estado de espírito adolescente com a aparência e fazê-lo uma coisa amorfa no entorno social. 

Dinky, no filme, é uma menina problemática e acredita ser a filha secreta de uma celebridade local (Roxy Carmichael) que retorna depois de viver 15 ano fora da sua cidade. Isso mexe muito com todos os habitantes, mas principalmente com ela, pois acredita que a mãe veio lhe buscar. E é esse jogo entre a expectativa e a realidade (dela e dos outros habitantes da cidade) o condutor do enredo do filme. 

Porém, o que mais me fazia sentir-me parecida com a Dinky, além da questão do não-pertencimento ao mundo que a rodeava, era o fato de ela não se importar com o que pensavam dela. Chateava saber que ninguém me levava a sério e ninguém entendia o que eu falava, mas também, "if you don't like what you see, so don't look at me" (se você não gosta do que está vendo, então não olhe pra mim).

Deixo um trailer fan-made super mega bem feito, para vocês terem uma ideia:




6. Chloe Sullivan [Série: Smallville]




A Chloe acaba dispensando muitas apresentações, porque é bem famosa. Só sei que acompanhei Smallville desde que começou mesmo, e tive uma identificação imediata com a personagem da Chloe. Esse aspecto dela de não se dar por satisfeita com as coisas que aconteciam à sua volta, de querer investigar e buscar respostas me representavam muito bem. No fim, só terminei vendo Smallville por causa dela xD. E copiei todos os seus cabelos, da primeira à última temporada. Terminamos crescendo juntas. 

7. Hitomi [ Anime: Escaflowne]




Grande parte do fato de eu amar Escaflowne, se deve à Hitomi. Assim como ela, eu amo demais correr e na época também tinha essa veia mística que ela tem e tudo. Coisa de adolescente. Isso sem contar que ela, quando transportada para Gaea, tem seus poderes místicos aumentados e acaba tirando o Van e o Allen de muitas encrencas. Acho que eu também me identifico com essa parte de tirar pessoas de encrencas, às vezes xD.

(Não vou deixar nada, porque não achei nada divertido xD)


8. Selena [ Novela: Corpo Dourado, de Antônio Calmon]




Pra não falar que eu não falei de novela... xD

Selena era macha, botava os home tudo no chinelo e não tinha paciência com frescura. Sou eu, aí! xD High five.

Deixo o anúncio que o Fantástico fez da novela, na época:






É isso, espero que tenham gostado. Se conhecem algum, se ficaram com vontade de conhecer algum, se se identificam ou não, contem aí! E deixem o link do blog (please, me poupa trabalho) pra eu retribuir a visita, porque sim, porque eu adoro!

E corram no blog da Monique, o Inverno de 1996, porque ela também falou dele tema!


P.S: Agradeço o blog http://tionitroblog.wordpress.com do qual tirei a citação de O tempo e o vento.

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5 comentários:

  1. Lady, que post maravilhindo!! Adorei as referências e algumas delas nem me lembrava mais, como a Dinky, a Selena e a Jo. A Chloe era a minha favorita, mas quando apareceu a Lois eu tive uma identificação imediata com ela, hahhaa.
    Que bom que você vem ao Mesa me visitar sempre que quer dicas de filmes, fico muito feliz e conto com a sua visita sempre que quiser.
    Estou escrevendo o post dessa blogagem coletiva...será que vai ter alguma coisa parecida?!
    Abs
    http://mesadecafedamanha.blogspot.com.br

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  2. Oie! Não conhecia a história de Antonio Salieri, depois vou procurar (Sou fã de musica clássica, vejo e ouço tudo relacionado). Em relação a Smallville Chloe dava de 10 a 0 nas outras 2 personagens femininas. \o/
    Beijos
    https://pausandoavida.wordpress.com/

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  3. Encantada com o seu post! Muito interessante escolher personagens com os quais nos identificamos. Lendo o seu post, me identifiquei com o músico Saliery, pois eu tenho uma alma de artista desde criança e sou incompreendida, às vezes sonho alto, às vezes acabo cedendo aos comentários negativos, por exemplo " Você é louca? Como assim quer ser escritora, ser ilustradora ou pintar quadros?", depois volto a sonhar novamente, acordada e dormindo, enfim, somente quem tem a veia artística consegue entender o outro. E esse filme da Dinky Bosseti? Estou maravilhada com o trailer, simplesmente adoro filmes assim, que mostram as inquietações do ser. Abraços! www.janelasingular.com.br

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  4. Não conhecia quase nenhum,mas foi bem legal conhecer e pesquisar sobre nos personagens :)
    Adorei postagem :D
    Beijos ^.^
    littlewonderscrm.blogspot.com

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  5. Dos personagens que você citou, único que eu conheço é o Floriano Cambará e também gosto imensamente dele. Em uma saga com tantos personagens marcantes, Floriano é um dos que conseguem se destacar.
    Beijos,
    alemdacontracapa.blogspot.com

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