14.1.15

Escrever bem

14.1.15


Já tinha dito no meu post sobre meus três anos de Nyah que pouco tempo depois que eu entrei, abriram, no site, um pequeno processo seletivo para a vaga de professor de português. O processo consistia na escrita de um pequeno texto que respondesse a pergunta: "Por que é importante escrever bem nos dias de hoje?". Tendo isso em conta, escrevi um pequeno ensaio que gostaria de compartilhar com vocês. Não é lá um texto lindo e maravilhoso, até termina de um jeito dramático e com frase de efeito xD, mas considero que nele tem muita coisa que eu acredito a respeito da escrita e ele acaba deixando evidente o lugar que a literatura tem na minha vida "apesar de". 


Escrever bem

A internet está repleta de sites que discorrem acerca da importância do ato de escrever, salientando que o domínio do idioma demonstra confiabilidade e transmite segurança. Todavia, tratar o ato de escrever como “domínio do idioma” e atribuir-lhe uma função prática é tratar a questão desde um ponto de vista reducionista e desconsiderar, ainda, a escrita de ficção.
Assim sendo, antes de discutir sobre a importância de escrever, faz-se necessário um recorte. Portanto, para a composição deste texto proponho as seguintes perguntas, que orientarão as reflexões feitas: O que seria escrever bem? Há uma finalidade prática na escrita de ficção? Onde estaria a importância dessa escrita?
Absolutamente, não estou negando a importância do conhecimento do idioma para a escrita, e nem poderia. O vocabulário culto, a consciência sintática, as noções de coesão e coerência são necessárias para aqueles que têm como meta a composição de um texto, seja argumentativo, dissertativo, ficcional etc. Porém, e minha grande pergunta é esta: as noções gramaticais, em qualquer nível, são suficientes para que uma pessoa ascenda à condição de escritor? Qual é o papel da gramática para a literatura, se esta última tem como meta a liberdade plena, até mesmo à custa da subversão das regras que a compõe? 
A resposta da primeira pergunta, sem dúvidas, se trata de um longo e sonoro “não”. E é aqui que quero chegar: o domínio das noções gramaticais não faz de um indivíduo um escritor de ficção. Faria, talvez, um bom professor de português, um bom “escrevedor” (como muitos bons artistas gostam de chamar as pessoas que dominam o idioma), mas não um escritor. Contudo, o ato de escrever tampouco se trata de um talento inato, reservado a poucos privilegiados, ou concedido por qualquer entidade divina. Para escrever se necessita, inicialmente, de algo demasiado simples: sensibilidade, afinal, “a poesia está em tudo”. No entanto, a sensibilidade por si só tampouco é suficiente, pois, escrever também “é trabalho”. Para provar essa faceta temos Edgar Allan Poe, o pai do conto moderno, que, em seu texto “Metodologia da composição” destitui quase por completo a aura da escrita ao descrever, em uma espécie de passo-a-passo, toda a arquitetura de sua obra mais famosa, “o corvo”. 
Ora, se o domínio das noções gramaticais não faz de um indivíduo um escritor, qual seria, então, o papel da gramática? Obviamente não se trata uma resposta passível de ser discutida em um parágrafo sem ser discutida de maneira leviana, haja vista que os linguistas têm discorrido sobre essa questão há mais de cinquenta anos. E os escritores, por outro lado, têm tratado do tema de maneira muito particular desde o movimento das vanguardas, subvertendo por completo as leis que regem uma “linguagem adequada”, de forma a retratar a língua em exercício, como muito bem podemos lembrar no poema “pronominais”, do escritor Oswald de Andrade, um dos maiores expoentes do modernismo brasileiro, em que o poeta contrapõe o fato de que “a gramática do professor e do aluno” não condiz com a “do bom negro e do bom branco da nação brasileira”. Não obstante, acredito eu, e pode parecer clichê, que um indivíduo só será capaz de destruir ou subverter determinada regra quando conhecê-la em seus pormenores, afinal de contas, para alguém ser livre, há um dia que ter sido preso. A gramática, portanto, para um escritor de ficção, deve ser um meio e não um fim. O escritor de ficção deve fazer uso da gramática para alcançar o efeito desejado nos textos escritos, com a consciência de que a sua destruição ou subversão significa tanto como seu uso “adequado”. Na literatura tudo é possível, desde que haja uma intenção, porque nada deve ser escrito por acaso. 
Os sites da internet que discutem a importância de escrever bem obviamente não estão tratando deste assunto desde o ponto de vista da ficção. Deve-se dominar a escrita argumentativo-dissertativa, de maneira que se possa discorrer sobre um assunto e defender satisfatoriamente uma ideia ou pensamento. Em verdade, à primeira vista, em muito pouco a escrita de ficção pode ser considerada útil à vida do ser humano, vista sob o ângulo da praticidade, afinal, se formos listar a importância da literatura frente às questões que envolvem cura de doenças graves ou à busca de uma solução para a pobreza no mundo, a literatura ficaria bastante apagada em último plano. 
O professor, crítico literário e escritor italiano Umberto Eco, em seu livro “Sobre a literatura”, afirma que a esta é um bem que consome gratia sui, ou seja, por amor de si mesma, e, assim sendo, não serve para nada. De imediato, é como a pergunta que norteia o tema aqui discutido deveria ser respondida. Escrever bem, ficção, não serve para nada. Não acabamos com a fome no mundo, não resolvemos os problemas políticos do nosso país, não trazemos ninguém de volta, por mais profundos que sejam nossos textos, por mais elaboradas que sejam as nossas histórias, por mais que trabalhemos a fim de construir o elefante drummondiano com os materiais mais caros que podemos adquirir.  
No entanto, desapegando-nos dessa visão pragmática, somos capazes de observar a escrita e a literatura sob outro viés, vendo-a como o mais poderoso instrumento “humanizador” de que se tem conhecimento a respeito (apesar de não ser uma condição primordial, isso é importante ressaltar, porque não acredito que a escrita ou a leitura nos façam melhores), através do já mencionado exercício constante de sensibilidade, o caminho que trilhamos para nos aproximarmos cada vez do que eu chamaria (tomando emprestado o termo da escritora e filósofa Íris Murdoch) de “ideia do bem”.  
Então, qual a importância de escrever bem? Espero que seja possível observar que estamos indo muito mais além de uma mera posição no mercado de trabalho, ou uma nota boa na redação do ENEM. A importância de escrever bem reside no fato de que ao criarmos e recriarmos situações, conflitos, bem como seus desenvolvimentos e respectivas conclusões, estamos, muito ao contrário de fugir da realidade (como o senso-comum afirma constantemente), descobrindo meios de superar esta realidade que sempre nos revela de maneira fantástica e enigmática; estamos, no final das contas, tentando apresentar caminhos que tornem esclarecedora a aventura do homem na Terra (tomando emprestadas as palavras do crítico Cornejo Polar); estamos aprendendo a viver, criando personagens no sentido de entender e aceitar “o outro”, figura cada vez mais distante e fugidia na sociedade atual; tentando salvar nossas vidas e também aprendendo a morrer, ao notar a força do Fado na nossa existência, coisas que escapam ao nosso controle e para as quais não temos respostas. Porque, como diz o grande poeta Ferreira Gullar: “a arte existe porque a vida não basta”.


E pra você, o que é escrever bem? Qual a importância disso? Comenta aí =3

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5 comentários:

  1. Acredito que a gramática seja importante no ato da escrita. Afinal erros gritantes de concordância ou de ortografia desvalorizam qualquer texto. Mas concordo com o que você disse :só a gramática não basta, é preciso ter sensibilidade pra ser um escritor:)
    Amei o blog:)
    te coloquei no meu blogroll
    http://reflexoesdaminhamentedoida.blogspot.com.br/2014/12/arrependimento.html

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    1. Olá, sua linda!
      NOssa, que honraa, estou no blogroll de alguém <3
      E isso me lembra que eu preciso montar o meu, coisa que venho adiando há séculos!
      *-*
      Bom, vamos que vamos, né?
      Um beijooo!

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  2. Gente que texto lindo. Eu amo a arte escrita desde antes de começar a ler. A imagem dos livros na estante de casa já me deixava fascinada.
    Agora respondendo a sua pergunta "O que é escrever bem?", na ficção acredito que é passar emoção. Passar o sentimento. E acredito que isso só se aprende escrevendo e lendo muito.

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    1. Que bom que você curtiu o texto, minha querida <3
      Fico felizona mesmo!
      Em relação à escrita, acho que se precisa dedicar tempo a ela, como a qualquer outra coisa que a gente queira fazer bem =3. Como eu disse, acho que todo mundo é capaz de fazê-lo, mas vai muito mais além do que saber escrever frases corretamente =D

      Bjoo!

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  3. Olá! Hoje vim conhecer um pouquinho mais o teu blog. E me deparei com este texto lindo. quantas coisas interessantes e importantes de serem refletidas você nos trouxe. Acho que todas as pessoas, que desejam ser escritores, que escrevem por gosto ou mesmo que gostam de ler apenas deveriam estar diante de tuas palavras. Vejo muita gente querendo, como você disse muito bem, status... E esquecendo que a escrita faz parte de nossa Humanidade, que devemos conhecê-la sim, mas que antes de qualquer coisa devemos ter com ela um relação "íntima".

    Muito linda tua reflexão Lady.
    Um grande abraço!

    Vanessa Vieira

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