28.12.14

Origens do storytelling [parte 3 - e última]

28.12.14


No post anterior sobre "As origens do Storytelling", (aqui) falamos sobre a antiguidade até a transisão para a era moderna. Hoje, para finalizar, vamos falar da modernidade até os dias de hoje.

Depois de falar sobre o "Dom Quixote", como vimos, o professor  Dr. Hans-Christoph Hobohm salta para o século XVIII e diz que foi aí que saiu a primeira tradução de “As mil e umas noites”. Essa é outra obra super importante para a literatura ocidental (apesar de não ser literatura ocidental) porque essa mesma maneira  de contar histórias usada pela Sherazade, e prender a atenção do rei (ou seja, ela sempre parava a narrativa em um momento que aguçava a curiosidade do rei para ter que contar o resto no outro e, assim, não morrer), vai ser usada pelos nossos queridos (nem sempre xD) criadores de séries e novelas para nos matar a cada final de capítulo e temporada. Aprendam, pequenos gafanhotos.


No século XVIII explode (não estou dizendo que nasce xD) a prosa ficcional (usando uma terminologia que ele mesmo usou na aula) e essa prosa se difere bastante das narrativas orais. São narrativas criadas para serem escritas, ou seja, o livro se faz necessário na composição dessas histórias. E, ainda, as histórias deixam de ter aquele caráter coletivo passando a tratar mais do “eu”, de um sujeito, como também a experiência de leitura se torna mais individual, como eu já havia dito.

E no século XIX temos, como tal o conhecemos, o romance. Vale lembrar que a invenção da imprensa permitirá uma democratização e uma maior distribuição dos livros na sociedade. 

E no século XX vamos ter uma crise de representação na arte em geral. Na literatura essa crise vai resultar no Nouveau Roman francês que, de acordo com o copiei do e-dicionário de termos literários é:

Termo aplicado a um conjunto de romances franceses publicados no pós-guerra (depois de 1945) da autoria de Alain Robbe Grillet, Nathalie Sarraute, Michel Butor, Marguerite Duras, Claude Simon. O termo é sobretudo da responsabilidade dos jornalistas, que tiveram que encontrar uma designação acessível respeitante à renovação romanesca ocorrida no panorama da literatura francesa da década de 50. Mas, de facto, não existem afinidades claras entre as várias produções literárias; o que existiu foi uma confluência dessas produções numa editora, Éditions de Minuit e uma vontade de renovar o romance,  rejeitando a maioria das suas características tradicionais. Por vezes, estes romances lembram o “antirromance” e têm como antecessores Kafka, Louis Ferdinand Céline, William Faulkner, Samuel Beckett e Albert Camus. (CABRAL, Eunice. Nouveau Roman. In: CEIA, Carlos. E-dicionário de termos literários, 2012).

Tenho um texto super interessante sobre o nouveau roman do Jean-Bloch Michel, mas não acho nem online nem à custa de reza... Quem não tem cão caça com o gato, então deixarei o texto do dicionário mesmo, clique aqui para acessá-lo.

O nouveau roman marca um processo de desconstrução da narrativa, se aproximando muito mais, como vimos, de uma antinarrativa, em que o mais importante não é o que acontece ou a mensagem que determinada história carrega, mas a própria construção da narrativa em si. Costuma ser uma literatura difícil, à beira do ilegível e cobra muito mais do leitor, desafiando-o a usar todos os conhecimentos que ele tem em diversas áreas.

Aproveitando essa deixa, e puxando para o lado da América Latina, eu gostaria de falar sobre o Boom latino-americano que, para mim, também revoluciona profundamente a maneira de contar histórias, estabelecendo como gêneros literários o “realismo mágico” e o “realismo fantástico” que são muitos importantes e surgem como rompimento desse romance realista, ao estabelecer uma relação íntima entre a realidade e a fantasia e quebrando as fronteiras entre uma coisa e outra.

Copiando de um artigo que eu escrevi por aí:

O “Boom latino-americano” (que sinaliza o estabelecimento de uma nova configuração para o romance hispano-americana) foi um movimento marcado principalmente pelo aparecimento de um numeroso grupo de jovens escritores cujas obras tiveram ampla divulgação no cenário internacional. Influenciados pela vanguarda europeia (especialmente pelo surrealismo), pelo fluxo de consciência joyciano, pelo tratamento do tempo em Proust, pelo noveau-roman francês e pelo crescimento acelerado das cidades, estes escritores assumiram uma postura desafiadora diante das convenções estabelecidas na literatura latino-americana, através de obras caracterizadas pela desintegração das formas tradicionais romanescas, especialmente retratando o que Jean Bloch Michel define como “la palabra hablada”, negando uma suposta elaboração do pensamento, como acontecia com os romances tradicionais, tornando o leitor “cúmplice”, em lugar de “passivo”, como o era anteriormente; pela ruptura com a realidade circunstancial, haja vista que é empreendida uma jornada à imagem criadora e ao realismo mágico, em que o irracional e o absurdo se apresentam como cotidianos e, igualmente, o irracional da personalidade se torna uma metáfora da existência humana, relatado por um narrador – que também é personagem, e muitas vezes duplica a própria voz autor – que já não se limita a pensar “fechado” em si mesmo, senão a falar em voz alta, ainda que não haja diretamente um interlocutor com o qual estabeleça a comunicação. Nas palavras de Jean Bloch-Michel: “... el autor de la nueva novela [lo que] ofrece es [...] el soliloquio alambicado de un personaje frecuentemente fracasado que habla como los dementes.” (BLOCH-MICHEL, 1967, p.17)

Além disso, não devemos de mencionar as tensões políticas, o impacto da revolução cubana e das ditaduras emergentes na América Latina, o que tornará os escritores socialmente engajados e militantes. Dessa forma, podemos pensar que os escritores que conformaram o período mencionado recorreram aos elementos surpreendentes ou “maravilhosos” de suas culturas não para que fossem narrados como imaginários, ou como uma fuga da realidade, por assim dizer, mas como elementos que fazem parte daquela realidade cotidiana. Além disso, aproveitando-se da condição “ex-ótica” (ou seja, fora de foco) em relação países do velho mundo, os escritores do boom se utilizaram desses elementos para se posicionarem diante da realidade em que viviam, assumindo uma postura crítica diante do quadro social e político da época. Interessante, né? E, pra mim, muito importante especialmente para os escritores de fantasia.

No final das contas, no novo romance, e também no boom latino-americano, o sujeito da narrativa está descentrado, fragmentado e já não existe uma racionalidade que funcione como um aparelho ordenador da história e que seja capaz de salvar esse sujeito, inclusive. Diferentemente do que acontecia no século XIX, no século XX o narrador não controla a narrativa por meio de um eixo condutor “sólido”, por meio de uma trama linear e definida, ao contrário, esse eixo condutor está espalhado no texto sem qualquer traço de graciosidade haja vista que a busca pelo belo e pela harmonia foi abandonada.

Os autores mais importantes com certeza são os nossos queridíssimos Gabriel Garcia Marquez (Colômbia), Julio Cortázar (Argentina), Mario Vargas Llosa (Peru), Carlos Fuentes (México). O Brasil ficou meio renegado no boom latino-americano, mas eu incluiria sem medo de ser feliz o Guimarães Rosa que igualmente revoluciona o modo de contar histórias no Brasil, por meio do trabalho sem precedentes que faz com a linguagem em suas narrativas (leiam o Grande Sertão: veredas, pessoas – ano passado estive em evento de literatura latino-americana na Colômbia, daí encontramos um grupo de japoneses. Sentamos pra conversar com eles, porque “como assim que esse povo japonês sabe de literatura latino-americana???”, daí perguntando o que era mais estudado por lá e talz, e eles responderam na hora que na Universidade deles tinha um grupo de estudos grandíssimo sobre Guimarães Rosa e o Grande sertão: veredas. Nem quase morremos de emoção, imagina... Agora, até os japoneses estão lendo o Grande sertão e você ainda não, então corre lá xD).

Eu acho TUDO interessante no boom latino-americano, tudo mesmo, mas essa capacidade que os autores tiveram de pegar justamente a visão estereotipada que os europeus tinham da gente e transformar isso em ironia, em crítica e em uma maneira de denunciar a própria realidade em que viviam, isso realmente pra mim não tem preço. Foi uma renovação na nossa literatura, o que marcou sua ascensão e o que colocou a América Latina no mapa. A partir desse fenômeno, finalmente não mais nos reconheceram como reprodutores da cultura europeia, mas como produtores de obras originais mesmo.

Ainda falando do século XX, o professor fala sobre a hermenêutica fenomenológica, que é uma corrente filosófica centrada na compreensão, grosso modo, na interpretação (fenomenológica porque encara o texto como "acontecimento"). A hermenêutica fenomenológica, no âmbito da crítica literária, causa uma grande revolução, porque coloca, por primeira vez, a figura do leitor em destaque. Primeiramente tivemos o autor em primeiro plano, então quando alguém lia determinada obra literária, ia procurar na vida do autor o que justificasse o conteúdo de determinada história. Depois tivemos a ênfase no conteúdo da história, quando tudo simbolizava alguma coisa. Depois tivemos a ênfase na forma da história, quando era possível fazer análise literária por meio de gráficos e tabelas de maneira a provar um ponto de vista. Finalmente, com a hermenêutica fenomenológica, tivemos a ênfase no efeito causado por uma história, colocando, como eu já disse, a figura do leitor em evidência e como parte importante do processo literário. Não cheguei a estudar o Husserl, que o professor cita, mas estudei bastante um discípulo do Husserl, o Roman Ingarden, que tem uma obra chamada “A obra de arte literária” e discute como as partes de uma obra se desdobram de maneira a causar impacto em quem a lê.

Por fim, no século XXI, estamos voltando a uma narrativa mais ordenada de novo, retomando a questão da autobiografia. Estamos abandonando a ideia de representação de uma realidade para uma coisa mais performática, por assim dizer, isto é, autor e personagem passam a se confundir nessa narrativa do século XXI, assim como a figura pública do autor e o autor como pessoa também passam a se confundir. Isso falando bem por cima, ainda preciso estudar (bem) mais sobre isso...

No nossos dias, também a possibilidade de contar histórias se torna muito mais ampla e mais democrática com o surgimento da internet, das redes sociais... Assim como o alcance...

Ai, cansei. Enfim, espero ter ajudado xD

Alguns materiais legais para essa segunda unidade:

O professor citou Barthes, "O prazer do texto"

Parece-me interessante:

Diálogo Sócrates e Íon
Ars poética: Aristóteles
Ars poética: Horácio (não falei do Horácio, mas ele é super importante. E esse texto dele é ótimo).
A República, de Platão (mas só interessa o capítulo X)



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