26.12.14

Origens do storytelling [parte 2]

26.12.14














No post anterior, começamos a ver uma aula do professor Dr. Hans-Christoph Hobohm que discutia sobre a origem do storytelling. Sua aula continua com este vídeo aqui, que é o principal:





Infelizmente não o achei legendado. Sorry =(


No post anterior (aqui) terminamos nossa discussão na "Grécia", sobre obras como Ilíada e Odisséia.

Então, continuando:



Já que estamos na Grécia, é importantíssimo falarmos sobre Platão e Aristóteles, filósofos que já começam a problematizar a questão da arte e seu impacto no entorno social. Ao passo que Platão é totalmente contra as manifestações artísticas (vou disponibilizar o capítulo X da república, em que é discutido isso) por se tratar de algo totalmente distante do ideal, grosso modo (para Platão a arte é duplamente ilusória porque se trata da cópia da cópia), Aristóteles se propõe a sistematizá-las, sobretudo no texto A Poética (parte da obra “A metafísica”), lembrando que, para Aristóteles, o termo poética não se refere à literatura nem à poesia como tais (conceitos que nem existiam), senão que significa o “saber fazer”, a “ação criadora/fabricadora”... E graças a ele temos essa divisão em gêneros textuais tripartida em “Épico”, “dramático” e “lírico” (também colocarei aqui esse capítulo sobre a Poética). E para Aristóteles esses gêneros eram muito rígidos. Se os textos não seguissem os requisitos exatamente como ele colocou, não eram textos, épicos, dramáticos ou líricos, simplesmente.

Achei que faltou, da parte do professor, falar um pouco sobre Roma (não é que faltou, não houve tempo, melhor). Em geral, tem-se essa ideia de que Roma copiou a cultura grega inteira, e isso é uma maneira muito reducionista de ver as coisas, uma vez que essa “cópia” não foi assim tão passiva. A apropriação (bem melhor termo que cópia xD) da cultura grega pela cultura romana é povoada de pontos interessantíssimos, e o mais importante deles para a literatura e para os gêneros literários, com certeza, é a questão da contaminatio, ou seja, de um modo geral, a contaminação dos gêneros literários. A Eneida de Virgílio, por exemplo, superficialmente falando pode ser uma cópia da Odisséia, mas é um suposto texto épico que carrega muitos e muitos traços da lírica. Na Odisséia temos a parte em que Odisseu vai pra ilha de Calipso (eu escrevi Circe, ficou um tempão aqui e ninguém me avisou xD). Ele fica com ela na Ilha, aproveitam, depois Odisseu tem que ir embora, e ele vai. Ela tenta impedi-lo, mas não porque se afeiçoou a ele, ou porque a companhia dele era agradável, mas porque ela não queria ficar lá sozinha. Então ele vai embora e ela volta à sua rotina de enfeitiçar os viajantes. Agora, na Eneida, temos o herói Enéias se encontrando com Dido. Os dois se apaixonam intensamente, e tudo isso é narrado com muito lirismo. Eles se casam, ficam felizes, mas quando Enéias tem que ir embora (porque Júpiter estava muito bravo xD), a cena da partida se torna quase um drama mexicano, Dido enlouquece com a partida dele, amaldiçoa-o e se mata (estraguei o livro xD – ah, nem tanto, tem muitas histórias em A Eneida).

Enfim, a grande questão da contaminatio é que ela mostrou uma mobilidade entre os gêneros literários, ampliando infinitamente as maneiras de contar histórias. Imagina se você, na época de Aristóteles, resolvesse contar uma história de um plebeu por meio de uma tragédia. Você seria quase queimado em praça pública, porque a tragédia estava reservada aos reis e pessoas importantes. Histórias de plebeus só podiam ser comédia. Narrativa, então, nem se fala. Existiam narrativas nessa época? Claro que sim, existiam os “romances gregos” (umas narrativas muito curiosas cheias de reviravoltas – e às vezes sem muito sentido), mas eram a "literatura de massa" da Antiguidade...

Os romanos, com sua maneira pragmática de pensar as coisas, colocaram também, muitas vezes, os personagens trágicos muito mais atuantes, em certo nível. Na Medéia de Sêneca, por exemplo, acontece uma série de intrigas por culpa das próprias personagens que nem chegam perto de acontecer na versão de Eurípedes. Não estou dizendo que algumas personagens de Sêneca são humanas e individualizadas, longe disso, elas servem mais para ilustrar uma questão didática/moral que qualquer outra coisa. Mas elas eram capazes de pensar mais por si, em certo grau, por assim dizer...

Mas estou enrolando aqui e nem consegui sair da Antiguidade ainda...

Sobre a época medieval, nem tenho muito que dizer, pessoal costuma “saltar” essa época. A era das trevas... Não me lembro de ter estudado grandes contribuições, e o professor também nem tocou nessa parte, por isso vou “pular”, antes que eu comece a falar bobagens.

Na transição da era medieval para a era moderna, o professor fala de Boccacio e do Decameron (ou Decamerão). Minha amiga Wikipédia (nem tanto xD) cita que o livro foi escrito entre 1348 e 1353. Há um filme sobre o Decameron, dirigido pelo Pasolini (confesso que vi o filme, mas não li o livro – que coisa feia... mas pelo menos me salva ser um filme do Pasolini haha). O Decameron fala de várias perversões, por assim dizer (não é filme para assistir com a família xD) e marca uma ruptura com os valores medievais da busca pelo espiritual, de uma certa gravidade (na falta de um termo melhor), assim como do teocentrismo e tal. Mas o professor ainda diz que o Decameron dialoga com as narrativas orais, porque nele ocorrem várias narrativas episódicas que são, de alguma maneira, “fechadas”. O livro inteiro não é uma história só, mas é uma coletânea de 100 histórias.

E, para assentar a era moderna de uma vez por todas, o professor Hans-Christoph Hobohm fala sobre a publicação de “O Dom Quixote”. Essa narrativa é de suma importância para a história da literatura e também para o “contar histórias” de uma maneira geral. Cervantes, por meio da obra, não apenas faz uma paródia dos romances de cavalaria, muito lidos na Espanha da época, ou da figura do cavaleiro herói, mas põe em cheque toda uma tradição cultural. Dom Quixote é o livro que estabelece o romance como gênero literário. O professor chama-o de “o primeiro romance moderno”. Até sua publicação, ainda se priorizava os gêneros literários conforme Aristóteles tinha estruturado. O livro marca a passagem do medievo para a era moderna com todos os seus dilemas, fazendo-o de forma irreverente, por meio da figura do fidalgo Dom Quixote que, louco de tanto ler livros de cavalaria, acredita ser ele mesmo um cavaleiro (ou seja, uma pessoa totalmente deslocada da sua própria época) e decide sair em busca de grandes aventuras, transformando-se no motivo de chacota da comunidade.

Mas não é que o Dom Quixote rompa com tudo de uma vez. Isso não existe. Dessa maneira, claro que a obra ainda vai carregar algumas características da narrativa tradicional, e o professor aponta que ainda há, na obra, essa marca de uma narrativa seriada, contando os vários feitos do “cavaleiro da triste figura”.

Agora vamos respirar, né? Ficamos com a era moderna e contemporânea no próximo post =D.

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