7.12.14

[Livro] Ensaio sobre a cegueira

7.12.14

Sinopse: Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.O "Ensaio Sobre a Cegueira" é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti. Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: ´uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos´. (Disponível aqui)

A obra conta a história de uma epidemia de cegueira, "o mal-branco", que se alastra por uma região e cega a todos (com exceção de uma personagem denominada "mulher do médico"). Primeiramente, no intuito de contar a doença, o governo coloca os primeiros cegos em quarentena num manicômio, mas como a epidemia ataca até mesmo todos os membros do governo, os cegos acabam saindo do manicômio e indo para a cidade que está inteiramente cega.


Os temas abordados na obra são muitos: em primeiro lugar, trata da fragilidade das relações sociais que se apoiam na visão. Fica nítida essa parte quando, na história, a cegueira se apossa de toda a cidade e esta toda para. Não há mais autoridades de nenhuma forma nem ninguém que tome frente dessa sociedade dominada pelo caos.

A obra também nos leva a pensar, consequentemente, que, mesmo vendo, estamos cegos diante do mundo, diante das mazelas, e mesmo em relação às pessoas à nossa volta. Como é explicitado na obra, somos "cegos que vemos". 

A palavra-chave que pode marcar o ponto de partida para a compreensão da obra é "desconstrução". O autor desconstrói o que é comum, começando pela cegueira que, normalmente negra, é colocada como branca, "uma luz sem fim", passando pelas relações sociais, de tempo, de espaço, de linguagem etc, causando um grande estranhamento no leitor que tem sempre a impressão de que tudo está "fora de lugar".

Com relação ao foco narrativo, observa-se que o narrador se encontra em terceira pessoa, é onisciente, mas não onipresente, visto que ele só acompanha o grupo "principal" de cegos da história. É um narrador curioso porque tenta se manter imparcial, entretanto não se esconde, se mostra através de várias interferências e, às vezes chega mesmo a ser irônico, como pode ser observado a seguir, quando o narrador descreve "a rapariga dos óculos escuros":

"(...)poder-se-ia incluir esta mulher na classe das denominadas prostitutas, mas a complexidade da trama das relações sociais, tanto diurnas como nocturnas, tanto verticais como horizontais, da época aqui descrita, aconselha a moderar qualquer tendência para juízos peremptórios, definitivos, balda que, por exagerada suficiência nossa, talvez nuca consigamos livrar-nos. Ainda que seja evidente o muito que de nuvem há em juno, não é lícito, de todo, timar em confundir com uma deusa grega o que não passa de uma vulgar massa de gotas de água pairando na atmosfera."

O próprio narrador é de certa forma desconstruído, visto que seu papel deveria ser o de narrar de forma fiel os fatos ocorridos. É o que ele tenta fazer, mas nessa tentativa, ele se perde, se mostra e não o consegue, tornando mais evidente a impressão do leitor de as coisas estarem "fora do lugar".

Em relação ao tempo, nota-se que é impossível situar de forma precisa a época em que se passa a história, de modo que a tendência é apontar para a atualidade, entretanto, uma atualidade que, de tão longe, tão "fora de questão" (por que não fora de lugar?) encontra-se perdida em algum tipo de realidade alternativa ou algo semelhante.

O tempo dentro da história se passa de uma maneira confusa, uma vez que os cegos não conseguem diferenciar a noite do dia e, dentro das camaratas, no começo, tentam marcar o tempo através de nós em  barbantes, mas, no decorrer dos acontecimentos, isso é esquecido e não há uma referência de quanto tempo a epidemia da cegueira durou, se foram dias, semanas ou meses.

"Um estômago que trabalha em falso acorda cedo. Alguns dos cegos abriram os olhos quando a manhã ainda vinha longe, e no seu caso não foi tanto por culpa da fome, mas porque o relógio biológico, ou lá como se costuma falar, já se lhes estava desregulado, supuseram eles que era dia claro, então pensaram, Deixei-me dormir (...)"

No que diz respeito ao espaço, pode-se dividir a obra em duas partes: na primeira tem-se o manicômio para onde os cegos foram mandados:

"Havia mais camaratas, corredores longos e estreitos, gabinetes que deviam ter sido de médicos, sentinas encardidas, uma cozinha que ainda não perdera o cheiro de má comida, um grande refeitório com mesas de tampos forrados de zinco, três celas acolchoadas até à altura de dois metros e forradas de cortiça daí pra cima. Por trás do edifício havia uma cerca abandonada, com árvores mal-cuidadas, os troncos davam a ideia de terem sido esfolados. Por toda a parte havia lixo".

Nesse lugar, gradativamente, há uma perda de contato com o mundo exterior e ali passa a ser o lar dos cegos, tudo o que eles conhecem do mundo. Gradativamente, também, as relações sociais se dão de tal maneira que faz daquele espaço uma espécie de mini-sociedade, que passa a abrigar pessoas dos mais variados tipos, boas e más, honestas e parasitas que vão se organizar de forma hierárquica semelhante ao mundo exterior, em que o mais forte domina e parasita o mais fraco.

Essa dominação é feita por uma arma de fogo portada por um dos cegos e se faz uma grande ironia, visto que sem a visão não tem como se utilizar de todo o potencial da arma. Mas, ainda assim, os demais cegos são dominados muito mais pelo que esta arma representa do que pela arma em si. Com isso nota-se a reprodução de costumes inúteis de uma sociedade que se apoiava na visão...

Na segunda parte tem-se a cidade, quando os cegos saem do manicômio:

"As ruas estão desertas, por ser ainda cedo, ou por causa da chuva, que cai cada vez mais forte. Há lixo por toda a parte, algumas lojas tem as portas abertas, mas a maioria delas estão fechadas, não parece que haja gente dentro, nem luz."

No fim das contas, os cegos se encontram novamente num manicômio de proporções maiores.

Na cidade as pessoas não conseguem mais recuperar o lugar que tinham na sociedade, assim como não conseguem recuperar a própria casa e até mesmo a própria família. Estão sempre passando, como andarilhos, de casa em casa, de loja em loja à procura de abrigo e comida que se tornam as prioridades nesta "nova sociedade".

Não há mais governo, nem saúde, nem moradia, nem trabalhadores ou patrões.Tudo pára... com isso há uma volta do homem à sua condição primitiva que o leva a se portar quase como animal. Fica evidente essa questão quando se diz da mulher do médico : "teria ela própria de cegar para compreender que uma pessoa se habitua a tudo, sobretudo se já deixou de ser pessoa" (p.218)
Tudo, obviamente, vai influenciar de forma bastante forte o relacionamento das personagens ao longo da história. Nota-se, primeiramente, que se tratam de pessoas comuns que se uniram por um acaso - trágico - e passaram a compartilhar da mesma desgraça. Esses personagens parte do que eu já chamei de grupo "principal" de cegos, são levados a se conceber de maneira nova no intuito de ainda preservarem o que têm de humano e não se portarem como animais, ou "selvagens".

Como a linguagem - o vocabulário -  marca a relação social dos indivíduos, ela será um ponto chave para a compreensão desta nova relação, também, de certa forma, deslocada.

É sabido que a primeira marca de individualidade do ser-humano se dá através do nome, é a primeira marca da identidade e já em relação a essa primeira marca há uma ruptura, uma vez que os cegos não dizem o próprio nome, mas suas profissões ou algum traço característico. No decorrer da obra a individualidade vai sendo cada vez mais deixada de lado para dar lugar à coletividade. Sobreviver sozinho, dessa maneira, é impossível, o jeito é se organizar em grupo e assim permanecer.

Esse é um primeiro ponto que mostra a desconstrução de antigas relações e adaptação a novas situações, mas, ainda em relação à linguagem, na obra é mostrada uma parte em que os cegos jogam uma série de provérbios sem rima. É curioso, e também ali mostra uma desconstrução na linguagem, fruto da desconstrução das relações que é fruto da desconstrução da linguagem e não saímos mais deste círculo vicioso.

A pontuação enfatiza essa questão da linguagem, uma vez que a ausência de pontos de exclamação, interrogação e pontos finais nos diálogos, ou seja, a sua demarcação, além de causar um grande estranhamento (às vezes não nos reconhecemos enquanto leitores e nos sentimos como cegos a tatear no escuro sempre esperando o porvir). Somos obrigados a trabalhar com a intuição, de modo a não nos perder em meio à confusão de falas e vírgulas à nossa frente.

Retomando a questão das personagens, não podemos nos esquecer de que esse "grupo principal" é "liderado" pela mulher do médico, que não cegou, e que se tornou não apenas o "porto-seguro" destes cegos, mas também representa a humanidade que eles tiveram, da qual foram privados e lutam para não perdê-la por completo. A mulher do médico não só os ajuda a se manterem vivos, como também os ajudam a se sentir vivos.

A mulher do médico também pode representar uma desconstrução da própria cegueira, porque, de tudo o que se encontra  "fora de lugar", o contraste maior é a sua visão.

Portanto, a desconstrução presente em vários aspectos na obra "Ensaio sobre a cegueira" nos leva a refletir sobre a fragilidade de tudo o que nos cerca, de todos os valores e prioridades, em uma sociedade que privilegia a visão sobretudo do superficial, o que nos torna, por consequência, meros "cegos que vêem".


Autor: José Saramago
Idioma: Português
País: Portugal
Gênero: Romance
Editora: Companhia das letras
Lançamento: 1995

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2 comentários:

  1. Nossa, o livro parece ser muito bom *-* Fiquei com vontade de ler agora, como eu amo leeeer <3 Ameeei o seu blog, tou seguindo viu?

    http://meioromantica.blogspot.com.br/

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    1. Oi, minha querida!
      Obrigada pela leitura =D
      E, sim, esse é um livro que todo mundo deveria ler. É uma coisa meio louca, como bem pontuei, sem ponto, nem vírgula, Saramago fazendo Saramaguice xD. Mas é um livro bem pesadão e deixa a gente bem pensativo a respeito da nossa postura diante da vida!

      Mais uma vez, obrigada mesmo pela leitura.
      Um beijo!

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